Saímos de Amsterdam no vôo das 11h. Dessa vez, foi mais rápido: em “apenas” 8 horas estávamos lá. Pousamos em Delhi aproximadamente às 23h – a India está 8h30min na nossa frente. Dólares trocados, todas as malas conferidas, corações batendo descompassados. Um calor danado! Para muitos, foi difícil conciliar o sono…
Dia 8 de setembro. Estamos na India! Iniciamos o dia com uma meditação no próprio hotel, já preparando nosso corpo-mente para as emoções que viriam pela frente. Nosso destino no período da tarde foi a estação ferroviária, onde iniciamos nossa aventura rumo às cidades sagradas. Ponto de chegada: Haridwar. Trecho longo… mas vimos um pôr do sol de cair o queixo! E também deu tempo para dormir um pouco. Desce do trem, sobe no jipe. Mais 1 hora e finalmente chegamos ao ashram do Swami Dayananda. Deu até para ouvir o barulho das águas do Ganges antes de dormir!
ashram do Swami Dayananda onde o grupo ficou hospedado por alguns dias
crianças molhandos os pés no Ganges em frente ao ashram
Ficamos no ashram nos dois dias que se seguiram. Participamos das pujas da manhã e das aulas baseadas no estudo de um antigo e famoso texto: Bhagavad Gita. Tudo dentro da rotina do próprio ashram!
O que não estava dentro da rotina do ashram, mas dentro do bom karma de todos os 35 peregrinos foi a conversa com o Swami Sarvabhutananda Saraswati. Ele carinhosamente nos recebeu para falar um pouco sobre os ensinamentos do vedanta. Puro deleite para nossas almas e para nossa memória, muitas vezes esquecida de que não estamos separados de nada.
Swami Sarvabhutananda Saraswati com o grupo
Apesar do calor – mais de 30°C com certeza – tivemos tempo para andar pelas ruas da cidade e assistir ao arati (cerimônia tradicional) realizado na beira do Ganges, que conta com a participação de muitos estudantes a pujari (sacerdote). O colorido das vestes e a introspecção das crianças tocam o coração. Houve tempo também para interagir com moradores, sadhus, visitar templos e outros ashrams. Até para fazer rafting nas águas da Mãe Ganga houve tempo… Houve tempo para parar no tempo e apreciar o atemporal.
rafting
No dia 11, acordamos cedo e logo após o café da manhã iniciamos nossa jornada rumo às cidades sagradas de Kedarnath e Badrinath. Percorrendo um caminho de curvas belíssimas e paisagens pra lá de estonteantes, fizemos nossa primeira parada: a caverna onde o sábio Vashishta meditou (e nós também!!!). Ainda nem imaginávamos o frio que nos esperava… Também nesse trecho, passamos por Devprayag – onde a junção dos rios Alaknanda e Bhaghirati dá origem ao Ganges – e, mais para cima, por Rudraprayag (junção dos rios Alaknananda e Mandakini). Nosso destino era Gupta Kashi, onde passamos a noite bem ao estilo indiano dessa região: água quente só de balde e sem energia elétrica após as 22h.
caminhos entre os Himalaias para chegar a Badrinath e Kedarnath

Devprayag onde fica a junção dos rios
Vale a pena dizer que a agência que nos levou durante todo esse percurso cuidou para que todas as refeições fossem o mais próximo ao nosso habito. E isso foi realmente maravilhoso!
Logo cedinho, seguimos para Gaurikund, porta de entrada para a subida a pé até Kedarnath. Uma trilha de 14 km foi percorrida por nossos pés e pelos nossos corações. Muitos olhares e muitas saudações trocados com peregrinos indianos, que vão até Kedarnath para agradecer as bênçãos recebidas. Om Namah Shivaya, Bam Bhole, Namaste. Região dedicada a Shiva, o vilarejo tem, na sua região central, um templo que reverencia aquele que destrói a ignorância, que renova as esperanças, que recicla a vida. E foi ali, nas margens do rio que formará o Ganges, sob um frio considerável (cerca de 6°C), que meditamos logo cedinho e que contemplamos os Himalaias. É também em Kedarnath que fica o local onde Shankaracharya (maior figura filosófica-religiosa da Índia) entrou em mahasamadhi (partiu do corpo). E lá nós também pisamos!
alguns integrantes do grupo se preparando para subir até Kedarnath
chegando em Kedarnath avistavamos os picos nevados
A descida foi mais rápida, mas não menos interativa. Natureza e povo, peregrinos sem pátria alguma e de uma única pátria: o Espírito!
Já estamos no dia 13 de setembro e nosso destino depois da trilha foi Rudraprayag, onde pudemos nos esbaldar apreciando a lua cheia antes de dormir. Sem dúvida, um dos melhores banhos de chuveiro quente até o momento!!!!
Manhã do dia 14. Pegamos o caminho para Badrinath, região dedicada a Vishnu, onde chegamos ao anoitecer.
O trecho todo, de jipe, levou cerca de 8 horas para ser percorrido. Valeu cada segundo, pois a paisagem, um das mais belas de toda a viagem, beijava nossos olhos o tempo todo. Apesar da escuridão da noite pudemos ver a pontinha do famoso pico Nilakantha, todo coberto de neve! Hotel simples e acolhedor. A comida? Um manjar dos Deuses. O banho? Quentinho até as 22h. Depois, só de balde!
4h da manhã. Hora de levantar para assistir à puja (cerimônia) no templo de Vishnu, apinhado de devotos. Templo pequeno. Grupo grande. Solução: fazer uma rodinha e meditar ali mesmo, do lado de fora, ao lado do pequeno templo dedicado a Hanuman, o símbolo do devoto fiel. A rodinha também serviu para aprender um pouco sobre a mitologia do local: historia conta que Shiva morava nessa região e Vishnu, gostando muito de lá, se transformou em uma criança, seduziu Parvati (a esposa de Shiva) até receber seus cuidados e quando o casal saiu para suas abluções, Vishnu os trancou fora de casa! Não houve outra opção para o casal Shiva e Parvati a não ser procurar outro lugar para morar (assim eles foram para Kedarnath). Enquanto Vishnu, tendo conseguido o que queria se estabeleceu em Badrinath.
Templo em Badrinath dedicado a Vishnu
No caminho de volta, paramos em Joshimath para visitar outro templo, construído bem ao estilo budista, mas dedicado a Shankaracharya. Sob o olhar e o cuidado carinhoso do pujari, meditamos em duas cavernas: uma onde um de seus discípulos – Totakacharya – meditou e outra onde ele mesmo – Shakaracharya – meditou até atingir a iluminação.
A emoção tomava conta de todos ao visistar a caverna onde Shankaracharya meditou
Mais uma noite no hotel com o melhor banho quente de chuveiro. Malas prontas para a viagem de volta a Rishikesh, onde chegamos na tarde do dia 16. Novamente, tempo para ver o arati na beira do Ganges e para passear em Ram Jhula e Laxman Jhula (bairros à beira do Ganges). Tempo também para oferecer uma bandhara (oferecer um almoço para uns 100 sadhus) e de saborear um kirtan (cantos devocionais) nas dependências do ashram, à beira do Ganges. Tempo para meditar ao lado do Swami Sarvabhutananda Saraswati e de receber uma prasada de suas sagradas mãos.
vista de uma das pontes de Rishikesh
alguns dos sadhus que vieram à Bandhara oferecida pelo grupo
Dia 18. Dia de viajar de trem o dia todo. O primeiro nos levou de Haridwar até a estação central de Delhi. O segundo, de Delhi até Varanasi. Muitas emoções. Pegar um trem na India é sempre uma grande emoção. Ainda mais para um “grupinho” de 35 pessoas! No trecho até Delhi teve cantoria no vagão. Musica brasileira de graça para quem quisesse ouvir!!! Os indianos adoraram! No trecho até Varanasi foi a vez das aulas de vedanta em companhia dos ratinhos. Camundongos, na verdade. Mas, passado o impacto inicial, foi tranqüilo dormir com eles.
chegada a Varanasi, onde o transito flui junto com as vacas
5 dias em Varanasi! Também chamada de Benares ou Kashi, a cidade está totalmente construída somente em uma das margens do Ganges. Somente onde Shiva pisou! Hospedamos-nos longe do Ganges. Pertinho do Mc Donalds. Para alguns, um verdadeiro deleite. Para outros, uma certa heresia, que foi embora rapidinho.
Arati no ghat central. Oferendas à Mãe Ganga ao nascer do sol: “minha mãe diz que é para gerar bom karma”, diz um menininho que vende flores. Visita aos crematórios, ao ashram da Anandamayi (famosa santa indiana), ao abrigo de Madre Teresa de Calcutá. Pura meditação em movimento. Conversas profundas com a velhinha que pedia esmola, feliz da vida, para comprar lenha para a sua própria cremação. Encontro de almas com a pequena Moni. Excitação e deslumbre ao apreciar um espetáculo de dança indiana e ao assistir a uma apresentação de música clássica indiana com citara e tabla. Um belo jantar à beira do Ganges, sob a luz do luar. Aula de raja yoga no próprio hotel. Massagem ayurvédica para relaxar. Visita a casa de Lahiri Mahasaya. Meditação no templo dedicado a ele. E muito calor!
Buda também entra na história na visita a Sarnath, local onde ele fez seu primeiro discurso depois de atingir a iluminação. Fotos e meditação. E mais calor!
devotos a beira do Ganges se banhando e purificando
oferendas às margens do Ganges
apresentação de dança clássica indiana para o grupo
a beleza e a calma de Sarnath
5 dias de muita troca: de olhares, de energia, de sentimentos e de emoções. 5 dias de de doação e de recebimento. E de compras também!
Partimos para Agra em 23 de setembro e mais uma vez dormimos no trem. Sem nenhum ratinho. E, enquanto alguns dormiam, outros brincavam de contar historias inventadas na hora.
Chegamos de manhãzinha e, mal deu tempo de descansar, já saímos para a tão esperada visita a uma das 7 maravilhas do mundo: o Taj Mahal. O branco do mármore, o colorido das pedras semipreciosas delicadamente encravadas na pedra e os belos jardins que circundam o monumento falam um pouco dessa historia de amor. Houve tempo para apreciar, contemplar e meditar. À tarde, visitamos o Agra Fort, onde o imperador Shah Jahan, que construiu o Taj Mahal, viveu após a morte da sua amada esposa.
o majestoso Taj Mahal à nossa frente

o belíssimo Agra Fort
Na manhã seguinte, após o café da manhã, seguimos de ônibus para Delhi. No caminho, visitamos um templo vaishnava em Matura, cidade onde Krishna viveu sua infância. Chegamos em Delhi no inicio da noite, mas ainda deu tempo para caminhar pela Janpath e por Connaught Place, um ponto bem central da cidade. A aventura ficou por conta de irmos de metrô até o local. Coisa de primeiro mundo!
Nos dias 26 e 27, pudemos conhecer e apreciar um pouco da capital da India, fazendo um grande tour pela cidade. Dias corridos, cheios de aprendizados! Também houve tempo para as tentadoras compras e para preparar as malas. Tudo organizado, deixamos as terras sagradas da India às 00h50 do dia 28 de setembro.
Voltamos por Amsterdam onde deixamos alguns colegas que estenderam sua viagem pelas cidades do velho continente.
Ao chegar, o reencontro com os seres queridos e a dificuldade de comunicar tantas coisas vividas. Os dias foram se passando mas a Índia ainda está em nossas mentes e corações. Vários membros do grupo relatam que mesmo 15 dias depois da viagem, continuam a sonhar com a Mãe Índia todas as noites.
Experiências intensas que nosso psiquismo irá assimilando no decorrer dos próximos meses. Vivências inesquecíveis que despertam a nossa alma para significados maiores e mais profundos. India: um lugar onde aprendemos a celebrar a presença onipresente do Infinito.